domingo, 16 de março de 2008

Um Bastardo de D. Pedro IV

O imperador teve duma freira um filho chamado Pedro. A freira era clarissa do Convento da Esperança, de 23 anos de idade, e formosíssima. Chamava-se Ana Augusta Peregrino Faleiro Toste, nascida na vila de São Sebastião, em 1809, e falecida em Angra a 29 de Maio de 1896, de idade de 87 anos. Nunca lhe foi anulado o voto, e recebeu mensalmente, até à morte a prestação de egressa, 15#000. O imperador conheceu-a, indo de visita ao Convento, em Março de 1832, na ocasião em que ela estava na sineira. O bastardo Pedro morreu em criança de 4 a 5 anos e foi enterrado no Sítio, junto ao adro da Sé.
O partido constitucional fez-lhe um grande e luzido enterro, tocando a marcha fúnebre a Charanga do Batalhão de Voluntários da Rainha D. Maria II, do qual era coronel o Visconde de Bruges. O enterro saiu da Rua de Jesus n.º 87. Esse prédio mandado reedificar pelo Leal, pertence hoje (ano de 1919) à família do falecido Sr. João Inácio de Oliveira. A criança fora entregue aos cuidados do criado íntimo dum alto valido do imperador, o engenheiro Luiz da Silva Mouzinho de Albuquerque, secretário da regência na Terceira, depois ministro do imperador regente.
Esse criado que foi junto da freira alcaiote do imperador, e que se conservou longos anos, íntimo dela, chamava-se Manuel José Pereira Leal. Obteve por alto patrocínio o lugar de recebedor da comarca de Angra, e depois passou a empregado nos tabacos. Por último, desprotegido, teve em Angra uma tipografia e papelaria, morrendo em Lisboa, de avançada idade, porteiro dum palácio.

O honrado velho, já falecido, Sr. Leandro José Martins, que foi aferidor do senado de Angra, verídico porta-voz da historia contemporânea da Ilha Terceira, acompanhou o cortejo e assistiu ao pomposo enterro do pequeno Pedro, príncipe extra uxorem. É esta a primeira vez que se imprime este facto histórico.
Não pode hoje haver susceptibilidades em narrar este facto sucedido; não deixando a freira nenhum parente, os bens que possuía, legou-os a estranhos. Além de que a história regista sempre os bastardos dos Reis; e as relações amorosas desta freira com o imperador permanecem como facto público na memória viva de toda a gente de Angra, misturado com anedotas picarescas e inverosímeis.
Não podemos averiguar em que paróquia de Angra ou da Terceira o régio bastardo foi baptizado. A criança parece que foi exposta e nesse caso avento a conjuntura de ser baptizada na freguesia da Sé aos 28 dias, do mês de Novembro de 1833, recebendo o nome de Pedro. Foi sua ama Maria Delfina, mulher de Francisco Rodrigues de Santa Bárbara. Os expostos costumam ser baptizados logo que saem nas rodas. Aceitando a conjuntura de que é este, necessita-se admitir a hipótese que depois de nascido esteve muitos meses sem ser expostos. O imperador permaneceu nos Açores desde 3 de Março, que desembarcou em Angra, até 27 de Junho que saiu de Ponta Delgada na expedição para o Mindelo.
A hipótese é admissível, mas a verdade é dificílima de averiguar. Existiu, positivamente, o bastardo, mas não ficaram documentos oficiais por motivos que é fácil compreender e desnecessário explicar.

Dr. Ferreira Deusdado

No Almanaque Açores de 1919, páginas 137 a 138
Nota: Luiz da Silva Mouzinho de Albuquerque na Wikipédia, a enciclopédia livre
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_da_Silva_Mouzinho_de_Albuquerque)

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